Vamos falar sobre Psicopatologia ?

Inicio esse texto com seguinte questionamento: Medicação psiquiátrica sem psicoterapia, é eficaz?

Primeiro de tudo, a medicação psiquiátrica, como qualquer outro remédio, vai tratar de aliviar sintomas, como o nome mesmo diz, remediar, e não tratar a causa efetiva dos sintomas. Por exemplo, uma dipirona não trata a causa da dor, mas alivia a dor no momento.  Um antidepressivo não vai tratar a causa da depressão, mas aliviar os sintomas – ate porque, através de estudos atuais, já se sabe que o argumento de “desequilíbrio bioquímico no cérebro” como causa da depressão, ja se caiu por terra (assim como para os demais transtornos). Aquela conversa de fatores inflamatórios no cérebro, também não se confirma em estudos recentes. Pouquíssimos estudos confirmam tanto a versão biológica, quanto a  genética, que também tanto se fala. Aqui a equação me parece muito clara. Como seres sociais que somos, se você cresceu numa  família com alguém que tenha transtorno, qual a probabilidade de passar ileso e ser 100% saudável?  Biológico ou ambiental? Ta facil essa) 

O que vai ser efetivo de fato, são as outras estratégias dentro do tratamento, como a psicoterapia. É ela, seja em qual abordagem for, quem vai promover a reflexão, reconhecimento de padrões neuróticos, entendimento do funcionamento integral da psique, desde o começo da vida até a atualidade. É no processo terapêutico que se re-conhece. Que se entende o momento atual e pode-se reconhecer a serviço de quê a patologia se apresenta naquele momento. Muito se fala hoje em dia que apenas a TCC é eficaz no tratamento mental, o que é um grande engano, A Tcc aparece em destaque por apresentar resultados mais rápidos, não necessariamente mais eficazes ou duradouros, atendendo assim, não necessariamente a necessidade do paciente, mas sim do mercado e da sociedade da produtividade. (Atenção, isso não é uma crítica á teoria, que considero válida em muitos casos, mas sim ao uso indiscriminado em nome de um indivíduo que não pode nem ter seu tempo de processos humanos respeitados, precisa ser “pra ontem”)

Nós, na fenomenologia e gestalt terapia, vamos abordar muito mais do que mudanças comportamentais adaptativas para o funcional produtivo. Vamos em busca da awareness, do sentido, do entendimento eu-no-mundo, e de tudo o que é relacional no adoecimento mental. Afetos, relações, histórias de vida, origens, campo,  narrativas, modo de ser,  necessidades, etc. 

É preciso também, fundar-se na crítica, e entender, o que de fato é uma patologia, e o que é um sintoma parte da angústia inerente à humanidade. A equação aqui e multifatorial, e é extremamente perigoso patologizar ( e medicalizar) emoções da vida cotidiana. A vida se apresenta processual. Tudo tem seu tempo. Patologizar o humano querendo apressar os processos ( geralmente em nome da performance e atras de resultados – alo alo neoliberalismo e contemporaneidade digital) não é tratar de “saude mental” com se costuma dizer por ai. É super patologizar. É des-humanizar, em nome de um parecer saudável (que é diferente de ser saudável efetivamente) É esconder frustrações e fracassos, ou outras emoções  normais – erroneamente consideradas como “ruins” – atrás de um cid.  É claro que ninguém gosta de sofrer, mas faz parte. São as polaridades da vida. Aqui também devemos questionar: onde é que aprendemos que determinada emoção é boa ou é ruim? Em que momento entendemos que determinadas emoções geram sofrimento. Alias, em que momento de fato nossas angustias se tornam sofrimento ? E quando se tornam patologias? 

Tenho um palpite aqui… 

Ainda na psicopatologização sem crítica, abrimos precedentes para que a maldade humana, o comportamento normativo sociais como machismo, racismo, capacitismos, demais sexismos e mau-caratismo, se esconda atrás de diagnósticos, que podem ser padronizados e relativizados por tal. 

Quem mais perde com isso?  

Os  de sempre. O “marginalizado”. O pobre, que vê sua condição de sobrevivência relativizada. Que vai entender-se como ansioso ou depressivo ( que de fato está), por instrumentos diagnósticos  que não vão levar em conta seu meio, sua condição social ou seu sofrimento no contexto de vida.  Aqui vamos além da saúde mental. Aqui falamos de direitos básicos. Moradia, comida. Condição digna de vida. Não se pode nunca falar em saude mental sem falar em garantia de direitos básicos.

Sofrem também as mulheres. São a grande maioria nos índices de acometidos a transtornos mentais. Desde o inicio da psiquiatria moderna, as mulheres tem diagnósticos ligados a questões biológicas e hormonais ( que, não podemos descartar, mas não são o fundamental). Quem não se recorda do Freud e seu famoso tratamento para histeria. Ali, tinhamos as questões de emoções reprimidas – por estarem dentro de um contexto social que não permitiam a mulher expressá-los. E hoje?  estamos sobrecarregadas, desvalorizadas profissionalmente, vitimas de violência de genero, grande alvo de padrões inalcançáveis  do mercado (de beleza, moda, estilo de vida, e ate saude ), maes que vivem maternidades aromatizadas, entre outras.. Não se fala mais em histeria, mas a repressão sobre nossos corpos e  emoções seguem firme e fortes.  Penso em Freud as vezes reescrevendo o mal estar na sociedade digital neoliberal. Pobre Sigmund… 

Sofre também a população negra, quilombola, indigena. Inferiorizados  como sub- culturas e raças. Colocados a margem até na condição de humanidade. Nunca alcançaram um padrao imposto,não se reconhecem socialmente, pois nada  é feito para eles, inclusive o inclusive o direito à saúde. É preciso aqui fazer um recorte de fato muito cuidadoso em se tratar de adoecimento mental.

E, especialmente, sofre aquele que de fato tem algum transtorno mental. Que, não se inclui em diagnósticos da moda. Que não necessita de medicação para performance, mas para uma vida mais confortável e de fato saudável. Que ainda segue estigmatizado, pois, embora a epidemia de diagnóstico parece banalizar os transtornos, ela segue estigmatizando aqueles que realmente necessitam. Especialmente os psicotizados e acometidos a sofrimentos graves.

Se todo-mundo-tem e ta ai, pq é que vc também não melhora? Como não sentir o fracasso nessa condição? Algumas pessoas de fato não tem ideia de efeitos colaterais de medicamentos e que tais pessoas não conseguem ficar sem e gostariam muito…

E por essas e outras que nos, profissionais da saude mental, precisamos ser críticos, entender o novo “mercado de diagnósticos”, estarmos cientes de que atuar em saúde mental nos exige enxergar os diferentes recortes sociais existentes, suas necessidades primárias e entender que saúde mental também se faz com a garantia de direitos básicos. 

Alias, encerro com outro  mais questionamentos:

Se o adoecimento acontece dentro de uma estrutura social e a partir das relações desse meio, como a cura pode ser individualizada como se prega? 

E mais…  Interessa a quem mesmo tanta gente adoecida pra vender  remédio? 

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